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Tática no boxe — estudar o adversário e preparar a desforra

11 min de leitura
Tática no boxe — estudar o adversário e preparar a desforra
Neste artigo

No boxe amador, os adversários repetem-se. O pugilista com quem perdeu no campeonato regional volta a aparecer na Taça, e o parceiro de sparring da semana passada estará lá outra vez na próxima. Quando isso acontece, «é rápido e bate forte» não serve de plano. Serve saber em que guarda estava, o que fazia com o jab, a que distância queria combater, que golpes acertou e quais sofreu, para onde saía quando o encostava às cordas e o que mudou do primeiro para o terceiro assalto.

Tudo isto se vê num combate, mas passada uma semana já não se recorda com a mesma nitidez. Com meia página escrita logo depois, essas observações passam a ser um plano para a desforra ou para o próximo sparring. É para isso que serve um caderno de adversários — não para colar um rótulo a alguém, mas para guardar comportamentos concretos que se podem confirmar da próxima vez: «dobra o jab para medir a distância e só depois entra com o direto».

Canhoto ou destro — e quem ficou com o pé por fora?

A primeira linha da página é a guarda. Anote se o adversário combate como destro ou como canhoto (pé direito à frente) e se trocou de guarda durante o combate; se trocou, escreva quando: depois de levar um golpe, encostado às cordas, já no fim. Acrescente a sua própria guarda, porque o confronto depende das duas — destro contra canhoto dá guardas opostas; dois destros, ou dois canhotos, guardas iguais.

Com guardas opostas, cada um tenta pôr o pé da frente por fora do pé do outro, e as mãos da frente cruzam-se. Escreva quem conseguiu ficar com o pé por fora e o que veio a seguir. Um combate só não chega para rotular ninguém de vez; anote o que aconteceu naquele dia.

Há uma razão para esta linha vir primeiro. Thomas Richardson e R. Tucker Gilman, da Universidade de Manchester, estudaram mais de 13 800 pugilistas e lutadores de MMA profissionais e publicaram os resultados na Scientific Reports, em 2019. Nos pugilistas, usaram a guarda registada na base de dados BoxRec como indicador de quem era esquerdino. Os lutadores esquerdinos estavam muito sobrerrepresentados e tinham, em média, mais sucesso — nos homens, tanto na percentagem de vitórias como na classificação do BoxRec; nas mulheres, só na classificação. Os dados dizem respeito a profissionais, não a amadores, e vêm de uma base de dados, não de observação direta. Os próprios autores lembram que a guarda nem sempre corresponde à mão dominante. Uma média de milhares de lutadores não diz nada sobre o canhoto que vai defrontar, nem ensina a combatê-lo. O passo seguinte já não vem do estudo, é nosso — como a dificuldade costuma estar no confronto entre as duas guardas, a do adversário fica no topo da página, ao lado do historial que tem contra canhotos e contra destros.

Guarda, distância e o que faz o jab

Definido o lado, passe às mãos e aos braços — a guarda propriamente dita. Guarda alta, braços cruzados, mãos baixas, uma guarda ao estilo Philly shell ou peekaboo? Escreva só o que viu. Anote também como se defendia — com esquivas, bloqueios, desvios, a recuar, a agarrar — e em que momentos abria a guarda: depois de atacar, quando recuava, quando baixava as mãos.

A seguir, a distância. Queria combater na distância longa, na média ou no corpo a corpo? E o jab — pontuava, servia para medir, era uma finta, limitava-se a tocar ou vinha dobrado? Atacava primeiro ou esperava pelo seu ataque para responder?

Estas duas perguntas ganharam peso no boxe olímpico recente. Philip Davis, da Combat Sports Performance, no Essex, em Inglaterra, e colegas analisaram em vídeo 50 combates entre 60 pugilistas masculinos num Campeonato do Mundo disputado depois das alterações às regras de 2013, e publicaram o estudo no Journal of Strength and Conditioning Research, em 2018. Os vencedores lançaram mais diretos, incluindo mais diretos com a mão da frente, no primeiro assalto, acertaram mais golpes no total no terceiro e falharam menos no segundo e no terceiro. Para os autores, o boxe amador de elite passou a ser um boxe de distância longa, com diretos, mais defesa e mais movimentação pelo ringue, ao contrário dos ganchos em curta distância de antes de 2013. É a interpretação dos próprios autores, a partir da observação de homens de elite num único Campeonato do Mundo; não é um estudo experimental nem inclui pugilistas de clube, e as regras continuam a mudar. Para as notas, a consequência é simples — escreva a distância e o que faziam o jab e o direto da mão de trás, e repare se a precisão ou o volume do adversário mudavam de assalto para assalto.

Golpes, contra-ataques e saídas das cordas

Que golpes e combinações preferia? Atacava a cabeça ou o tronco? O que lançava depois de falhar e depois de levar um golpe? Tinha um contra-ataque pronto para o seu jab ou para a sua direita? E, dos seus golpes, quais entraram?

Depois, o ringue. Pressionava ou movia-se? O que fazia quando era pressionado — recuava a direito, rodava, agarrava? Para que lado circulava? Nas cordas e nos cantos, escreva onde ficou preso e, sobretudo, por onde saiu. Se saiu sempre pelo mesmo lado, é essa a linha mais útil da página. Anote também em que situações agarrava.

O que muda de assalto para assalto?

Um adversário não é o mesmo nos três assaltos. Anote o que mudou entre eles — volume de golpes, precisão, guarda, vezes que agarrou, movimentação — e, se se lembrar, o que ouviu do treinador no canto entre assaltos. Descreva ações, não estados de espírito. «Depois das trocas baixava as mãos» é uma nota que se pode confirmar no reencontro; «estava cansado» ou «teve medo» são palpites.

Emily Dunn, da Edith Cowan University e do Australian Institute of Sport, e colegas analisaram em vídeo 26 pugilistas masculinos de elite, das categorias até 64, 69 e 75 kg, no Campeonato da Austrália de 2015, em combates de três assaltos de três minutos pontuados com o sistema de 10 pontos por assalto. O estudo saiu na PLOS ONE em 2017. Os vencedores acertavam uma parte maior dos golpes que lançavam — 33% contra 23% — e lançavam menos golpes no vazio (17% contra 27%), embora o total de golpes, a defesa e o tempo passado em trocas fossem semelhantes. Com a precisão e o estilo de movimentação, os autores classificaram corretamente 85% dos resultados. Do primeiro para o segundo assalto, os pugilistas passaram mais tempo agarrados e com a guarda em baixo, e saltitavam menos; os autores veem nisto uma forma de gerir o esforço; não foi isso que decidiu os combates. O estudo observou 26 homens de elite num único campeonato nacional e mostra como os juízes pontuaram com aquele sistema; não é uma regra para qualquer prova. No caderno, isto quer dizer anotar o que entrou e o que falhou, e não só se alguém lançava muitos golpes.

Quanto ao resultado, registe-o tal como foi anunciado — decisão unânime, decisão dividida, combate parado pelo árbitro. Não reconstrua boletins de pontuação nem cite artigos do regulamento; as regras e os critérios mudam.

A sua parte no combate

Uma página só sobre o adversário deixa metade do combate de fora. Que golpes levou e em que situação? O que repetiu, mesmo quando não resultava? E que golpes seus entraram, nem que fosse uma vez? Escreva sobretudo o que contraria a primeira impressão. Se à saída do ringue a impressão era de que o adversário era intocável e um golpe seu entrou duas vezes, essa nota tem de lá estar.

Edward Thomson e Kevin Lamb, da Universidade de Chester, observaram 92 pugilistas amadores ingleses, de 11 categorias de peso e de dois níveis de competição, regional e nacional, num trabalho publicado no International Journal of Performance Analysis in Sport em 2016. O estudo encontrou no boxe amador uma carga técnica elevada, com cerca de 25 golpes e 10 ações defensivas por minuto. Os pugilistas de nível mais alto faziam mais ações ofensivas e defensivas, a vitória esteve associada a muitas ações ofensivas e poucas defensivas, e a categoria de peso não teve um efeito consistente. É um estudo de observação com amadores ingleses, que mostra associações e não causas, e não diz como vencer nenhum estilo. Tem o interesse de ser o único dos quatro que inclui pugilistas de nível regional, o nível de muitos leitores deste texto. E os autores recomendam que a investigação futura tenha em conta a qualidade e o «estilo» do adversário, que é precisamente o que se regista numa página destas.

Uma ficha de cinco campos

Nenhum dos quatro estudos testou se escrever notas melhora os resultados no boxe. A ficha que se segue é proposta nossa, tal como o limite de dois testes, que é uma escolha e não uma conclusão da investigação.

  • Contexto. Prova e fase do torneio, ou sparring; adversário; categoria de peso; guarda de cada um; resultado tal como foi anunciado; de onde vêm os pormenores.
  • Guarda e distância. Guarda de destro ou de canhoto e trocas de guarda, posição das mãos, distância preferida, o que faz o jab.
  • Golpes e ringue. Golpes e combinações preferidos, contra-ataques, alvos; para onde vai quando é pressionado; cordas, cantos, quando agarra; o que muda de assalto para assalto.
  • O meu boxe. Onde levei golpes, o que repeti, o que entrou.
  • Para a próxima. Dois testes, cada um com a condição em que o ponho de parte.

Deixar campos em branco é permitido; inventar contagens ou percentagens não é. Indique a fonte de cada observação — memória, vídeo, o treinador. Um padrão que se repetiu é uma hipótese, não uma certeza, e os contraexemplos ficam ao lado. Se houver vídeo, confirme por ele o que mais pesa no plano. A investigação sobre a memória dos atletas explica porque convém escrever cedo, sem fixar um prazo a partir do qual tudo se perde. E se fizer um esboço do ringue em papel ou colocar um pin no esquema, escreva o que aconteceu ali — um ponto sem legenda não é uma nota.

Um exemplo inventado

O exemplo seguinte foi inventado para explicar o método. Não é um combate real, não vem de dados de utilizadores e não reproduz observações dos estudos citados.

Contexto: «Campeonato regional, meia-final, três assaltos, contra o Simão. Já tínhamos feito sparring uma vez, num treino entre clubes. Ele combate como canhoto e eu como destro, portanto guardas opostas. Escrito de memória, com o que o treinador me disse no canto entre assaltos e um vídeo de telemóvel do segundo e do terceiro assaltos, filmado pela Marta, colega de clube. Não contei golpes.»

Guarda e distância: «Dobrava o jab para medir a distância. Quando eu entrava a direito, acertava-me com o direto de esquerda, a mão de trás dele.»

Golpes e ringue: «Quando eu o pressionava, saía para a minha esquerda, ao longo das cordas, e escapou por ali todas as vezes. Ao sair para esse lado, ficava sempre com o pé da frente por fora do meu. No terceiro assalto agarrava sempre que eu encurtava a distância, e depois das trocas baixava as mãos.»

O meu boxe: «Fui sempre atrás dele em linha reta e levei com o direto de esquerda ao entrar. Deixei o meu pé da frente ficar por dentro do dele. O meu jab ao corpo entrou duas vezes no segundo assalto, por isso ele não é intocável. Resultado anunciado: decisão dividida a favor do Simão.»

Teste A: «Em vez de ir atrás dele, dar um passo para lhe fechar a saída pela minha esquerda antes de atacar, e lutar para ter o pé da frente por fora. Ponho este teste de parte se ele começar a sair pelo outro lado, ou se eu continuar a levar com o direto de esquerda enquanto dou o passo.»

Teste B: «Manter o jab ao corpo e, quando ele baixar as mãos depois de uma troca, seguir com um golpe à cabeça. Ponho este teste de parte se desta vez ele mantiver as mãos em cima, ou se o direto de esquerda continuar a passar por cima do meu jab.»

Antes do reencontro, leia os dois testes com o treinador e trabalhe-os nas manoplas e em sparring orientado por ele; depois do combate, acrescente o que aconteceu. Meia dúzia de trocas de que se lembra são pistas a confirmar, não probabilidades.

No reencontro, confirme antes de insistir

Logo no início do combate seguinte, procure o que escreveu — o mesmo jab dobrado, a mesma saída das cordas, pelo mesmo lado. Se o adversário trocou de guarda, mudou de categoria de peso ou está a combater de outra maneira, o plano já não serve, e o mesmo acontece se não conseguir pôr em prática o que escreveu. Mude o plano em vez de insistir.

Leia a página com o treinador e transforme um padrão numa pergunta concreta para as manoplas ou para o sparring. Em sparring, com o treinador a acompanhar, peça a um colega que imite o hábito em causa — que combata como canhoto, que saia sempre pelo mesmo lado. Ao fim de alguns combates, compare páginas de adversários diferentes e procure o que se repete do seu lado. O artigo sobre reflexão e desempenho desportivo discute o que a investigação permite concluir, e porque não permite atribuir às notas, por si sós, um efeito comprovado nos resultados.

No OpponentBook, o boxe tem um esquema do ringue — cordas, canto vermelho, canto azul e dois cantos neutros — onde pode colocar pins em qualquer ponto. Cada pin tem um de quatro tipos (Resultou, Não resultou, Perigo ou Tendência) e leva uma nota. O perfil do adversário tem campos opcionais para a base, a guarda, a distância preferida, a envergadura e a categoria de peso. Na base escolhe entre «Ortodoxa (pé esquerdo à frente)», «Canhota (pé direito à frente)» e «Alterna (switch)»; na guarda, entre «Guarda alta», «Philly shell», «Peekaboo», «Braços cruzados (cross-arm)» e «Mãos baixas»; na distância, entre «Longa», «Média» e «Curta». O caderno é gratuito. Os registos sincronizados ficam no armazenamento que ligar à aplicação; a base de dados das contas do OpponentBook não guarda uma cópia do caderno. Quando faz um pedido à IA, o conteúdo necessário passa por um servidor do OpponentBook até ao fornecedor de IA. A encriptação ponta a ponta opcional impede o fornecedor de armazenamento de ler os registos encriptados; as fotografias, os vídeos e os metadados dos ficheiros visíveis ao fornecedor de armazenamento ficam fora dessa proteção. O artigo sobre a privacidade das notas táticas explica estes limites com mais pormenor.

Esta noite, pegue no último combate ou no último sparring que fez. Escreva o que o jab do adversário fazia e para onde ele saía quando o pressionava. Depois escolha duas coisas para experimentar da próxima vez.

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